Barcelona, esplendor na relva
Tenho com o Barça uma estranha relação. Cresci a admirar o Dream Team, a delirar com os golos deliciosos de Romário e com Laudrup a olhar para um lado e a dar para o outro. Mas mal este acabou, virei-me para o Madrid de Raúl para chatear o meu pai e por lá fiquei. Hoje, mesmo preferindo o Madrid ao Barça, é-me humanamente impossível não admirar a orquestra blaugrana. Uma equipa que ameça seriamente tornar-se uma das míticas.
Apesar da globalização, as equipas mantêm uma certa identidade. Não falo apenas do Athletic de Bilbao (esse mostra o dedo do meio à globalização), falo de várias: o Milan é cínico, a Juve chega a ser velhaca. O Liverpool é mítico e o Real Madrid monstruoso. Pensamos no Manchester United e vem-nos um vendaval à cabeça, o Bayern de Munique um exército. E quando pensamos no Barça?
O Barça de Pep Guardiola (um jogador tão brutal que Valdano dizia que ninguém o devia tratar por tu em campo) é uma delícia muito difícil de descrever e está tão afinado que dói. A equipa que faz coisas que, como escrevi sobre a finta de Messi no Calderón, dão vontade de virar a cara por pudor. Um pudor que o Barça já não tem. Em certos momentos, a humilhação do rival chega a dar pena. Acabam de joelhos, cansados, desmoralizados, esmagados.
A bola parece não parar. Minha, tua, tua, minha. Passe longo, passe curto. Um, dois, três e a equipa mexe-se como num tango. Divertem-se todos, disfrutam. Tudo começa em Xavi, um maestro que - passe a heresia - passou o mestre Pep que se senta num banco. Refinou o futebol a dois toques que o mítico 4 tanto amava: parar e receber. A melhor solução está sempre ali: perto ou longe, depressa ou devagar, o arranque fatal ou o passe para trás. A bola sempre com ele, a orquestra a girar. Os rivais desesperam. Depois, há Iniesta, a centopeia (expressão de Jorge Valdano). Um anjo com a bola nos pés. Siamês de Xavi, é como se fosse uma versão mais mexida, mais driblador. A maneira como ontem arrancou entre Carrick e Anderson para o primeiro golo é de uma elegância artística. Repare-se na diferença: Cristiano Ronaldo quando arranca é em força, tipo vulcão. Iniesta ontem pareceu-me que voava.
Por fim destaco, obviamente, Leo Messi. A pulga que nos parece mesmo ter genes de, ele mesmo, Maradona. A bola colada ao pé esquerdo como por encanto, a anca que finta repetidamente, os arranques imparáveis, como se fintasse os buracos da rua onde jogava quando era pequeno e depois tentasse rematar entre baldes do lixo. Messi é o menino da rua que, como li nalgum lado, paarece-nos que chega ao campo de boné para trás e pergunta timidamente se pode jogar.
Mas mais do que isso, este Barcelona revolucionou o futebol. Entregou-o de novo aos artistas. E até a mim, um defensivista, me conquistaram. Honra seja feita a Pep e a Luis Aragonés (que descobriu no Europeu que se desse um trinco - e, logo, a liberdade - a Xavi e a Iniesta dava à equipa a hipótese de poder mesmo passar os 90 minutos com a bola nos pés). O Barcelona que vi esta época fez jus à cidade. Não à parte turística, cheia de ingleses bebâdos. Fez jus aos bares escondidos no Bairro Gótico, onde se fala em catalão de liberdade.
Ver este Barça jogar emociona-me mesmo, como me emocionei a ler o "Por quem os sinos dobram". Arrepia-me ver aquela equipa baixinha, em Roma, trocar a bola rente à relva como se ensina aos infantis. E a alegria com que toda a gente se mexe e descobre um espaço e passa e arranca e a maneira como todos disfrutam. Ontem, em Roma, ganharam os bons. Os príncipes, os artistas. Aqueles a quem normalmente se reservam as vitórias morais. O Manchester, mais alto e mais forte, talvez lhes ganhasse todas as provas de atletismo. Mas ontem, a beleza do futebol - aquela que Nélson Rodrigues descreveu antes de todos os outros e Valdano continuou - revelou-se toda, num jogo que sintetizou uma época que será sempre falada no Bairro Gótico.
Este Barça não é uma equipa, é uma orquestra. Um sinfonia, um hino, arte. Quando Xavi lançou aquela bola celestial para Messi, percebi logo o lance e arrepiei-me. Arrepiei-me mesmo, como se um calafrio me passasse. A bola é divina, é perfeita, há um momento - como diz o jornalista do As - em que até parece que se atrasa para chegar à cabeça de Messi, como se tudo fosse combinado.
Não sei se este Barça da bola no chão e tabelas e passes vai durar muito. Se num futebol cada vez mais fodido pela globalização, cada vez mais rápido a consumir-se, se vai durar o suficiente para marcar a década. Mas a mim, que cresci com o jogo e que me apaixono por toda a vida, toda a história que ali se faz, já me marcou.
Foi como se me apaixonasse. Este Barça é o Esplendor na Relva.
El gol lo marcó Messi, pero lo inventó Xavi. El centrocampista colgó un centro al área y el balón tuvo la virtud de citarse con Messi, que volaba a su encuentro. Si contactaron por teléfono o telepatía lo ignoro, pero hubo un instante, y se observará en las repeticiones, que jugador y pelota se esperaron hasta coincidir, acelerando uno y retrasándose el otro. El tanto fue soberbio, pues descubrió al más pequeño por el aire, como si viajara en la onda expansiva de una explosión o cayera de algún sitio, del cielo seguramente. El gol, por cierto, también incluía un mensaje, como las galletas chinas. Decía Balón de Oro.
Apesar da globalização, as equipas mantêm uma certa identidade. Não falo apenas do Athletic de Bilbao (esse mostra o dedo do meio à globalização), falo de várias: o Milan é cínico, a Juve chega a ser velhaca. O Liverpool é mítico e o Real Madrid monstruoso. Pensamos no Manchester United e vem-nos um vendaval à cabeça, o Bayern de Munique um exército. E quando pensamos no Barça?
O Barça de Pep Guardiola (um jogador tão brutal que Valdano dizia que ninguém o devia tratar por tu em campo) é uma delícia muito difícil de descrever e está tão afinado que dói. A equipa que faz coisas que, como escrevi sobre a finta de Messi no Calderón, dão vontade de virar a cara por pudor. Um pudor que o Barça já não tem. Em certos momentos, a humilhação do rival chega a dar pena. Acabam de joelhos, cansados, desmoralizados, esmagados.
A bola parece não parar. Minha, tua, tua, minha. Passe longo, passe curto. Um, dois, três e a equipa mexe-se como num tango. Divertem-se todos, disfrutam. Tudo começa em Xavi, um maestro que - passe a heresia - passou o mestre Pep que se senta num banco. Refinou o futebol a dois toques que o mítico 4 tanto amava: parar e receber. A melhor solução está sempre ali: perto ou longe, depressa ou devagar, o arranque fatal ou o passe para trás. A bola sempre com ele, a orquestra a girar. Os rivais desesperam. Depois, há Iniesta, a centopeia (expressão de Jorge Valdano). Um anjo com a bola nos pés. Siamês de Xavi, é como se fosse uma versão mais mexida, mais driblador. A maneira como ontem arrancou entre Carrick e Anderson para o primeiro golo é de uma elegância artística. Repare-se na diferença: Cristiano Ronaldo quando arranca é em força, tipo vulcão. Iniesta ontem pareceu-me que voava.
Por fim destaco, obviamente, Leo Messi. A pulga que nos parece mesmo ter genes de, ele mesmo, Maradona. A bola colada ao pé esquerdo como por encanto, a anca que finta repetidamente, os arranques imparáveis, como se fintasse os buracos da rua onde jogava quando era pequeno e depois tentasse rematar entre baldes do lixo. Messi é o menino da rua que, como li nalgum lado, paarece-nos que chega ao campo de boné para trás e pergunta timidamente se pode jogar.
Mas mais do que isso, este Barcelona revolucionou o futebol. Entregou-o de novo aos artistas. E até a mim, um defensivista, me conquistaram. Honra seja feita a Pep e a Luis Aragonés (que descobriu no Europeu que se desse um trinco - e, logo, a liberdade - a Xavi e a Iniesta dava à equipa a hipótese de poder mesmo passar os 90 minutos com a bola nos pés). O Barcelona que vi esta época fez jus à cidade. Não à parte turística, cheia de ingleses bebâdos. Fez jus aos bares escondidos no Bairro Gótico, onde se fala em catalão de liberdade.
Ver este Barça jogar emociona-me mesmo, como me emocionei a ler o "Por quem os sinos dobram". Arrepia-me ver aquela equipa baixinha, em Roma, trocar a bola rente à relva como se ensina aos infantis. E a alegria com que toda a gente se mexe e descobre um espaço e passa e arranca e a maneira como todos disfrutam. Ontem, em Roma, ganharam os bons. Os príncipes, os artistas. Aqueles a quem normalmente se reservam as vitórias morais. O Manchester, mais alto e mais forte, talvez lhes ganhasse todas as provas de atletismo. Mas ontem, a beleza do futebol - aquela que Nélson Rodrigues descreveu antes de todos os outros e Valdano continuou - revelou-se toda, num jogo que sintetizou uma época que será sempre falada no Bairro Gótico.
Este Barça não é uma equipa, é uma orquestra. Um sinfonia, um hino, arte. Quando Xavi lançou aquela bola celestial para Messi, percebi logo o lance e arrepiei-me. Arrepiei-me mesmo, como se um calafrio me passasse. A bola é divina, é perfeita, há um momento - como diz o jornalista do As - em que até parece que se atrasa para chegar à cabeça de Messi, como se tudo fosse combinado.
Não sei se este Barça da bola no chão e tabelas e passes vai durar muito. Se num futebol cada vez mais fodido pela globalização, cada vez mais rápido a consumir-se, se vai durar o suficiente para marcar a década. Mas a mim, que cresci com o jogo e que me apaixono por toda a vida, toda a história que ali se faz, já me marcou.
Foi como se me apaixonasse. Este Barça é o Esplendor na Relva.

6 Comments:
Brutal.
É sempre um prazer ler as tuas cróniacas "Valdanas", mas acredito que a situação do nosso clube te sugue a vontade de vir aqui renovar estes magníficos pedaços de literatura futebolística.
Um abraço e viva o Benfica!!!
Excelente!
É pena que tenhas pouco tempo para vir aqui escrever mais vezes. As tuas crónicas trazem o cheiro da relva quando, de manhã, entramos em campo para treinar. Cheiram a futebol.
Abraço.
Comento este texto em dois sítios, no Apenas Futebol (que te citou) e aqui. Soube bem lê-lo duas vezes, é bom revisitar a paixão pura pelo futebol.
Obrigado pela viagem.
Abraço
Foda-se...Arrepiaste-me!!!
Boas
Está fantástico!!!
Espero ler mais coisas tuas apesar do "nosso" BENFICA.
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